Capítulo III
Em 1952, com dez anos, Adamor foi mandado para Belém estudar. Foi praticamente à força — entregue a um viajante, chorando de saudade do interior, das brincadeiras no rio, das frutas. Em Belém morou com a família do senhor José Correia. Estudou no Colégio do Carmo a partir de 1953.
Mas o que marcou aquela chegada foi a vitrola. O pai comprara uma portátil com discos de 78 rotações: Emilinha Borba, Marlene, Carmen Miranda, Pixinguinha. Para um menino que no interior nunca ouvira rádio, onde a vida terminava cedo à luz de lamparina, aquilo foi uma revelação.
Nos discos aparecia o nome "Garoto". Como ainda era menino, Adamor pensava que fosse um garoto igual a ele. Dizia para si mesmo: se esse garoto toca, eu também vou tocar. O pai escondia as agulhas da vitrola. Adamor pegava as usadas e tentava afiá-las numa pedra para reutilizar.
O pai perdera o emprego público com as mudanças políticas — e antes disso perdera uma eleição para prefeito de maneira dramática: estava ganhando por oito votos, saiu para mandar um telegrama anunciando a vitória, e nesse intervalo os dezesseis votos em branco foram convertidos para o adversário. Em 1958 a família foi para Macapá.