Capítulo VI

Os Chorões de Belém

Em 1962, depois de dar baixa do Exército, Adamor ingressou no antigo DCT — Departamento de Correios e Telégrafos — e foi designado para Anajás. A promessa era ficar apenas dois anos. Ficou oito, até 1970. Mas toda vez que vinha a Belém para entregar as malas de correspondência — viagens de barco que duravam muitos dias —, procurava os chorões. E Belém tinha chorões. Delival Nobre, Edir Proença, Vaíco, Tota, Catiá e tantos outros. Velhos mestres que guardavam na memória e nos dedos o repertório clássico do choro brasileiro.

"Antes, o choro era sinônimo de boemia. Era sinônimo de boemia que caía nas rodas da juventude. Fui levado pelo choro."

Nessas estadias em Belém foi se tornando conhecido como cavaquinista. Reencontrou Jaci do Pacheco, que havia vindo de Macapá e já tocava com os grandes chorões da cidade. Por admiração a ele, chegou a trocar seu cavaquinho Del Vecchio por um instrumento mais simples que o amigo usava.

Nesse mesmo período, Adamor trabalhou numa fábrica de conservas de palmito em Anajás — onde chegou a ser gerente. O palmito de açaí extraído na região do Marajó era exportado para o restante do Brasil. Pediu demissão ao vivo pelo rádio depois de um desentendimento com a empresa. Envolveu-se também com a vida política local durante esse período — aprendeu a ler a política como um campo de forças humanas: alianças, traições, lealdades, compromissos. Essa experiência moldou nele uma visão pragmática do mundo que contrasta com o idealismo do músico, e ao mesmo tempo o complementa. Em 1979, Adamor veio definitivamente para Belém. Trouxe mulher, filhos e o desejo de tocar.

Do Igarapé do Limão para o Mundo Cap. VI
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