Capítulo VI
Em 1962, depois de dar baixa do Exército, Adamor ingressou no antigo DCT — Departamento de Correios e Telégrafos — e foi designado para Anajás. A vaga havia surgido porque o funcionário que a ocupava havia adoecido, deixando o posto sem ninguém. O pai de Adamor, sabendo da oportunidade, falou com o então deputado federal Américo Brasil, solicitando que o filho fosse indicado para ocupar a vaga. A promessa era ficar dois anos. Ficou oito, até 1970. Mas toda vez que vinha a Belém entregar as malas de correspondência — viagens de barco que duravam muitos dias —, procurava os chorões. E Belém tinha chorões: Delival Nobre, Edir Proença, Vaíco, Tota, Catiá. Velhos mestres que guardavam na memória e nos dedos o repertório clássico do choro brasileiro.
Nessas estadias em Belém foi se tornando conhecido como cavaquinista. Tinha um cavaquinho Del Vecchio, sete bocas, dinâmico. Foi através de Gercino Pacheco — que havia chegado a Belém em 1961, vindo de Macapá — que Adamor foi apresentado aos grandes chorões da cidade: Delival Nobre, Edis Proenz, Avaí, Cutota, Catejá, Tatá, Gerardão, Dadico, Edgarzinho e Gilson Rodrigues, atual dono da maior casa de choro de Belém. Adamor logo se entrosou com o grupo. Admirando muito o talento de Gercino, chegou a trocar com ele seu Del Vecchio por um instrumento mais simples — porque Gercino tocava muito mais nas rodadas de choro. Foi um gesto que dizia mais sobre lealdade do que sobre bom senso musical.
O DCT foi extinto e Adamor foi transferido para trabalhar nos Correios em Belém, onde conheceu a capital de verdade. Em 1975 concluiu o segundo grau na cidade. Nesse mesmo ano foi para Anajás, onde assumiu a gerência de uma fábrica de palmito na empresa Ibel. O palmito de açaí extraído no Marajó era exportado para o Brasil inteiro.
"Me tornei um chorão sem saber que já nasci um chorão nato."
Em 1979, Adamor veio definitivamente para Belém. Trouxe mulher, filhos e o desejo de tocar.